15/01/08

Touradas: A crueldade com rendinhas e plumas em tons rosa

 

grilo cantante touradas

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Detesto touradas, pela violência gratuita e inusitada que envolvem para com os touros e pela covardia de quem diminui as capacidades naturais do animal, serrando-lhe as pontas dos cornos, pelas anestesias, diminuição da visão, choques eléctricos e outros amolecimentos artificiais e torturas várias, fragilizando previamente o animal, preparando-o para uma luta desigual, na certeza de que será o derrotado dentro de um círculo de maldade emoldurado por uma multidão sedenta de sangue e espectáculo.
Esta violência, que, sobreviveu às arenas romanas, aos Neros e Calígulas, ainda prevalece no séc. XXI, reclamando direitos de tradição. Tem apenas o dom de gerar vontades e gostos de vingança quando, apesar de tudo, o animal consegue infringir danos aos brutamontes que os lidam, desde os amaricados cavaleiros, vestidos de cor-de-rosa, de rendinhas e plumas, até aos lorpas dos forcados, com as proeminentes barrigas enfaixadas de púrpura, que apesar de tudo são os que demonstram alguma coragem e valentia pela luta corpo-a-corpo, embora na proporção errada, mesmo lidando o touro já diminuído na sua força, e apenas com uma raiva ensanguentada mas já sem sangue.

Quanto aos matadores, perdoe-se-me a raiva, mas o meu maior gosto (decorrente da raiva) seria ver um corno, mesmo serrado, vazar-lhes as tripas inchadas de orgulho, vaidade e instinto assassino. Estou certo de que seria um ferimento cheio de dignidade, aplaudido pelos sequiosos de sangue quente, porque merecido, no campo da batalha, no decurso do espectáculo sórdido. Sempre lhe podiam fazer um epitáfio: “Aqui jaz um símbolo de coragem morto na arena, vazado pelos cornos de um touro covarde. Vingá-lo-emos!”.
Mas enquanto isso não acontece, apesar de cornudos avisos, felizmente alguns até fatais, os matadores, de reluzente espada em punho, lá vão mostrando a sua mestria na covarde arte de matar, cortar rabos e orelhas como verdadeiros heróis envoltos numa aura de imbecilidade, a mesma que sente um marmanjão que esbofeteia uma criança indefesa.

 

(entrada originalmente em 25/08/2007)